A integração da estrutura da
respiração e o corpo


De acordo com o que se acaba de expor, devia ter ficado esclarecido que a respiração e o corpo são vitais para se conseguir o desenvolvimento espiritual e para dominar as artes marciais.

É necessário entender com exatidão e detalhe a estrutura básica da respiração e do corpo.

Entre entendimento pode ser obtido de forma intuitiva ou se conta com os ensinamentos de um verdadeiro mestre durante um longo período de tempo; este tem sido o método de ensinamento tradicional.

Tal método exige que o aluno possua um certo talento natural.

Entretanto o que acontece e que nesta sociedade tecnológica, nossa condição física é muito inferior a de quem pertença à cultura tradicional.

Não me refiro ao fato de, por exemplo, estarmos livres de coisas tais como enfermidades contagiosas ou subnutrição endêmica; tampouco me refiro à força muscular ou a resistência física, mas sim, à boa colocação do corpo, à musculatura equilibrada e à respiração natural e profunda.

Neste sentido, se comparamos nossa sociedade com a de épocas anteriores ou com outras sociedades tradicionais, observamos que nos encontramos numa condição física lamentável.

As más posturas ou malposture, conforme denominou o professor Raymond Dart constituem o problema físico mais comum no ocidente; cerca de 80% das crianças já apresentavam problemas de movimento corporal.

Nas artes marciais internas chinesas, encontramos algumas das descrições mais explicita do que é uma boa postura física.

Podem dar-se muitas instruções: "esticar o pescoço", "encolher a barriga", "inflar a barriga" "e esvaziar o baixo ventre".

Estas instruções se ouvem, interpretam-se e põem em pratica; mas em ultima analise, mas em ultima analise, parece extremamente difícil conseguir algo que não seja novo conjunto de posturas incorretas.

O que muitos mestre das artes marciais são incapazes de expressar (pelo menos na linguajem da sociedade contemporânea ocidental).

Seus ensinamentos podem relacionar-se também com o budismo zen e com taoísmo.

De fato, quase todos os sistemas espirituais põem em relevo a importância de manter reta a coluna vertebral, especialmente em situações de meditação em que se esteja sentado.

Nos ensinamentos de Alexandeencontramos uma analise moderna sobre o que é esta "espinha dorsal direita" e a importância que isto tem.

Em primeiro lugar, deve assimilar-se que a posição do corpo na realidade carece de importância.

O fundamental é a postura, o equilíbrio dinâmico do corpo, o tônus fundamental dos tecidos corporais.

Uma espinha dorsal reta, que se mantém rígida pela contração muscular, pode torna-se apenas parecida com uma espinha dorsal por natureza reta e relaxada; mas há uma diferença muito nítida e fundamental entre uma e outra.

Quando o corpo tem uma boa postura natural, nenhum músculo fica tenso, nem flácido, nem caído.

Existe sempre um equilíbrio ativo entre tensão e a descontração (algumas vezes, este equilíbrio recebe o nome de "eutonia", em contrate com a "hipertonia" e com a "hipotonia").

Assinalaremos aqui algo importante: este estado do corpo não meramente um estado físico, mas sim uma característica de totalidade da pessoa, de seu eu.

E por isto que os budistas zens afirmam: "quando uma pessoa se senta corretamente no za-zen não esta praticando para chegar a Buda; quando se senta corretamente, é Buda".

A postura natural, ainda que basicamente seja um estado único, apresenta vários aspectos que podem ser descritos em termos internos e externos.

O pescoço mantém-se descontraído e a cabeça balança ligeiramente, colocada na posição natural.

Desta forma, a mente mantém-se lúcida e a consciência fica livre e ampla, como, a de uma pessoa contemplando uma planície vasta e aberta.

Por outras palavras, a consciência não introvertida, não se fixa nem se cinge a só uma coisa (que implicaria que o pescoço se esticasse e a cabeça se move-se para cima e para baixo).

Os chineses descreveram assim este estado: o espírito se eleva até a parte superior da cabeça.
A espinha dorsal, bem como as costas, é ampla, elástica e livre.

Sua parte inferior não esta tensa nem arqueada; quando o pescoço lança-se para cima, o cóccix estira-se para baixo, fazendo com que as costas por inteiro resistam.

Os chineses falam de levantar a espádua e encolher a cintura. Por outras palavras, todo o corpo forma uma unidade flexível, o que produz uma sensação de firmeza, de conexão e de integridade.

A parte inferior da espinha dorsal abaixa-se, enraizando-se na terra, formando a base firme do ser individual; o pescoço ergue-se, permitindo que a pessoa una-se ao sol espiritual da consciência plena.

As costas não só se alargam, mas também se dilatam, fazendo com que a respiração seja relaxada e profunda.

Os ombros se endireitam sem se deixar cair par frente, nem para traz; a espádua mantém-se solta, como que afastada da espinha dorsal, mas sem se contraírem ou se delatarem de forma rígida; a parte inferior das costas alarga-se, tornando-se uma poderosa base à qual se conectam as pernas.

Estes movimentos são um complemento do alargamento da espádua. Se alarga muito sem se dilatar, daria lugar a um sentimento de arrogância excessivamente centrado em questão espirituais.

A dilatação faz com que adotemos uma atitude expansiva e nos põe em contato com o mundo, com a gente e com a vida que existe na terra.

O coração é o centro desta expansão e o amor é sua essência.

Os membros integram-se perfeitamente ao tronco, de forma que as mãos e os pés ficam intimamente relacionados com o centro do corpo, isto costuma acontecer na medida que se melhora a postura das partes essenciais do corpo; é necessário também liberar as articulações dos membros para torna-los mais leves e possam responder rapidamente aos impulsos que lhes cheguem do centro.

Desta forma, ficam livres os caminhos para estabelecer um verdadeiro contato com o mundo e para formar e ser formados pelo que está fora.

Como resultado lógico do restabelecimento da postura, o processo da respiração torna-se mais livre.

O peito, o abdômen, a espádua e praticamente todo o corpo podem participar deste processo; a tensão, que impede a respiração de atingir todas as regiões do corpo, acaba diluindo-se.

A respiração já não se restringe apenas a movimentos de peito e de ombros, num estiramento e numa contração violentas, nem à expansão parcial do abdômen ou a uma atitude consciente de encher de ar as partes do corpo a isto destinadas; torna-se, sim, um fluido poderoso que, de forma continuada, dá energia a todas as células e as purificas.

Tudo isto implica existência de uma vontade de receber do meio e ele retribuir; não se criam barreiras impenetráveis inibidoras do contato, nem se perde a identidade quando se destroem irrefletidamente tais barreiras mais uma vez, temos aqui o caminho do meio; o equilíbrio que mantém o yin e yang em meio ao fluir do tao.

As condições configuram um cenário básico; como é lógico uma arte marcial pode praticar determinadas posturas que aparentemente e desviem destas questões fundamentais, todavia, se este estado de naturalidade não e matriz de todas ações.

Tudo o que foi dito pode também ser aplicado ás técnicas da meditação.

O budismo tibetano emprega com freqüência visualizações muito complexas embora antes e depois de pratica-las seja necessário adquiri o estado mental básico de abertura de espírito e de liberdade mental.

A katha yoga desenvolve poderosas e complicadas técnicas de controle de respiração; todavia, se uma pessoa não possui um controle da respiração natural antes de praticar tais disciplinas, estas podem torna-se bastante perigosas, podendo mesmo obstar ainda mais o livre funcionamento.

Estas questões básicas são freqüentemente esquecidas pelos que tentam construir a casa começando pelo telhado.